terça-feira, 22 de outubro de 2013

ESTE MUNDO




O mundo é esse aí, irmão
Imperfeito, perigoso e rápido
O dilema é você entender o momento
Ludibriar a fragilidade e correr para a luz

O porém da história nos percorre
Se ficamos aqui, os ideais morrem
Se adiantamos o passo olhando para trás
Nos iludimos por entre a neblina alheia

Não é nenhuma fórmula que te dão
Nem uma carta de boas ações
Não te dizem sobre a dor dos outros
Mas te vendem problemas sem fim

Jamais te perguntarão tu sobre tu
Nem ao menos ofertarão caminhos para ti
A existência é solitária sim, irmão
E é tu que podes reverter este sentir

Segredos que não são mais secretos
Flutuam num mar limpo e azul
Perdido nas gotas de cada choro
Vai teu pequenino barco, navegante

Navegando, por aí...


(O.L.)

quinta-feira, 30 de maio de 2013

O HOMEM - PROCESSIONAL






Junto de ti, homem, ser processional que só vês tua sombra,
pousa a mão no teu ombro o Anjo que te protege.
Mas, ora esvoaça à direita, ora esvoaça à esquerda
o grande e belo Anjo exilado da Luz.
Adiante de ti - perfurada e sangrando,
a mão do Redentor te aponta o caminho certo;
dentro de ti - seres anteriores a ti - luminosos ou negros
vão contigo e tua sombra.
Quando adormeces e ficas durante o sono - invisível e inocente,
e o livre arbítrio voa de teu cadáver,
a estranha procissão espera que tu te acordes
para prosseguir a marcha.
Por isso é que te cansas sem motivo nenhum.
Por isso é que andas de costas para o caminho certo.
Por isso é que tropeças e tateias como um ser sem leme.
Por isso quando pensas estar sobre o abismo do Inferno,
a mão perfurada e sangrenta te conduz para cima.



(JORGE DE LIMA - Poeta Brasileiro - 1893-1953)

RESIDÊNCIA





Regressarás pela ladeira velha
sem aviso.
Será como ontem, ao entardecer:
remoto, repentino, o assobio.
E no caminho, um soluço de festa
derramado.
A luz será úmida
a chuva íntima
sobre a marca dos teus pés.
Dedo a dedo, folha a folha
tocarás os cheiros
os sortilégios do quintal –
o limoeiro anão da avó
o decrépito izaquenteiro
o ocá assombradíssimo
o kimi torto
e à entrada, no barro gravado,
o fantasma do bode branco.
O degrau há de ranger ao primeiro passo.
Subirás devagar, concreto
sem pisar a tábua solta no soalho.
A porta estará aberta, a tocha acesa.


(MARIA DA CONCEIÇÃO LIMA - Poetisa São-tomense)

sexta-feira, 26 de abril de 2013

PELA METADE




Não há vida comum para um poeta, pois cada poema é uma transfiguração
É uma espécie de continuidade para o entendimento de ainda estarmos aqui
Não é mais importante ser reconhecido pela obra construída
Mas é imprescindível tocar aquele que lê e assim consigo levar

O dilema é que você um dia acorda pela metade
Sentindo todas as coisas sem talvez pensar em nada
Transita pela manhã solitária com os olhos marejados e vivos
Não entendendo os acontecimentos e nem o presente que te envolve

Maquina a alma como se fosse iluminado pelas mãos existir
O que se vê em um terço dessa humanidade, é um terço em mim
O que se espera ao correr longe sempre por aí
É não ter medo de pensar em tudo, é ser mestre ao sorrir


(O.L.)

quinta-feira, 14 de março de 2013

MUDANÇA



Retire um a um
cada tijolo
derrube o muro
remova os alicerces
da construção

Supere as amarras
do passado
lance o último olhar
ao que existia
e foi meta e conquista
na paisagem

Depois aplaine o campo
que restou
caleje as mãos antigas
no velho arado
refaça os canteiros
esquecidos
traga o regador
dos tempos antes
plante a nova semente
da esperança

E espere confiante
a volta das flores


(MAURO SALLES - do livro RECOMEÇO)