sábado, 30 de abril de 2011

ESSE GRANDE SIMULACRO














Cada vez que nos dão lições de amnésia
como se nunca houvesse existido
os ardentes olhos da alma
ou os lábios da pena órfã

Cada vez que nos dão aulas de amnésia
e nos obrigam a apagar
a embriaguez do sofrimento
convenço-me de que meu território
não é a ribalta de outros

Em meu território há martírios de ausência
resíduos de sucessos / subúrbios enlutados
mas também singelezas de rosa
pianos que arrancam lágrimas

Cadáveres que ainda olham de seus hortos
lembranças imóveis em um poço de colheitas
sentimentos insuportavelmente atuais
que se negam a morrer no escuro

O esquecimento está tão cheio de memória
que às vezes não cabem as lembranças
e rancores precisam ser jogados pela borda
no fundo o esquecimento é um grande simulacro

Ninguém sabe nem pode / ainda que queira / esquecer
um grande simulacro abarrotado de fantasmas
esses romeiros que peregrinam pelo esquecimento
como se fosse o caminho de Santiago

O dia ou a noite em que o esquecimento estale
exploda em pedaços ou crepite /
as lembranças atrozes e as de maravilhamento
quebrarão as trancas de fogo
arrastarão afinal a verdade pelo mundo
e essa verdade será a de que não há esquecimento.

Mário Benedetti, poeta uruguaio (1929-2009)

segunda-feira, 11 de abril de 2011

TRAVESSIA



Levam as estrelas, muitas assim distantes
Armaduras nas jornadas, poucos caminhos
Anunciam tempestades, brilham ouro nas mãos
Trajetória contínua, amantes pagãos

Que assombro este mundo, por vezes fábrica da dor
Atravessam campos e vales, anestesiados em horizontes de cor
Que não se permitam esquecer, a memória não padecerá
Não atormentará o espírito, nem o enlouquecerá

A tudo basta sentir, como ancestrais oportunos
Tal ser primitivo que liberto da clausura descobre o mundo
O sentimento que nos combate é o mesmo que nos avança
Tesouro envolto nas mãos, limiar de pura esperança

Unifica-se o medo, inventam um novo homem
Sempre se perdem sozinhos, anjos caídos de sonhos
Denotam cartas outorgadas ao amor, sentimento secular
Lançam no presente relações perigosas, buscam se encontrar

Até que na travessia confrontam as respostas
Mãos e linhas traçadas, um passado adormecido
Lançados ao único momento que parece novidade
Paiol de sentimentos, uma túnica com magia

Doce transformação que ocorre sob ventos tímidos
Eternidade que permeia e que nos guarda, porque assim somos
Delimita-se novas fronteiras, agregadas à novos acordos
Nada será igual após se entender o caminho


(O.L.)